Bailar das Letras - UOL Blog





Robert Frost (Tradução de Renato Suttana)

 

A FAMÍLIA DA ROSA

A rosa é uma rosa

E sempre foi rosa.

Mas hoje se usa

Crer que a pêra é rosa

E a maçã vistosa

E a ameixa, uma rosa.

Pergunta a amorosa

Que mais será rosa.

Você, claro, é rosa -

Mas sempre foi rosa.



 Escrito por bailarina das letras às 20h27
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língua pária

(Silvana Guimarães)

 

1.

 

Em casa de poeta

a palavra espeta.

 

 

2.

 

Se o entendedor é mau,

qualquer ponto é final.

 

 

3.

 

Pra quem sabe ler,

nem todo pingo é letra.

Pode ser lágrima.



 Escrito por bailarina das letras às 15h56
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"olho muito tempo o corpo de um poema"

Ana Cristina César

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas



 Escrito por bailarina das letras às 17h27
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tanto faz

(Silvana Guimarães)

 

Uma coisa amarela,

é isso o que eu quero.

Quem sabe a lua nova,

quem sabe um dia manso.

Talvez um galho de sol

sobre um rio cansado.

Uma coisa amarela,

eu quero, porque quero.

Talvez, cheiro de outono,

quem sabe, um pedaço

de vento, folha, areia,

coisa que vem de dentro.

Qualquer coisa, eu quero.

Da cor que regenera.

Qualquer tom de amarelo,

que não seja sorriso.

Pode ser até um beijo,

alguma coisa acesa.

Fogo, faca, afago

de tirar meu fôlego.

Quero, porque preciso,

alguma coisa qualquer.

Quem sabe uma palavra,

ainda que fosse suja.

Quem sabe só uma flor

chegando com urgência.

Uma coisa amarela,talvez.

Como um susto.



 Escrito por bailarina das letras às 15h14
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ESCÁRNIOS

Vladimir Maiakovski

 

Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.

 

Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz escavam com seus focinhos as raízes.

 

(tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)



 Escrito por bailarina das letras às 14h31
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Estou Cansado

Álvaro de Campos

 

Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto —

Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



 Escrito por bailarina das letras às 14h27
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