“You have the gift” alguém disse há algum tempo. Naquela hora era apenas um elogio desses que alguns oferecem quando esperam algo em troca. Passou. E repetiu-se em outras linguagens, em situações variadas. Sempre era mais um elogio ou uma coisa estranha que as pessoas dizem. Até que fez sentido. Fez sentido ver o invisível e tocar o intangível. Fez sentido o que veio antes, bem antes. Fez sentido saber o que estava escondido em forma de palavras; entender que especial não era ser melhor, era ser; entender que chorar em horas estranhas eram sinais de uma sensibilidade que dói, mas que também revela; entender que as marcas das feridas serviam de base para uma construção muito maior; entender que a liberdade, a real liberdade, é uma cruz que poucos sabem, de fato, carregar; sequer sabem o valor, porque liberam o corpo para manter suas almas cativas da incapacidade de abrir as portas cujas chaves se perderam...
“You have the gift”... e ter não é mais um peso; é a verdadeira e única razão de voltar aos braços que me re-pousam e me fazem bailar...
Era para ser férias dos blogs, afinal, eles também precisam descansar. Mas quando um amigo que sempre diz sim pede algo, temos que tentar ser sensíveis, se não sempre, algumas vezes. JJ me indicou para relacionar cinco livros que marcaram minha vida... ele só pode estar brincando! Imagine alguém que ama e respira literatura, em cujas veias correm letras, indicar apenas cinco livros que marcaram. Tudo que eu leio marca minha vida, é inevitável. Que eu gostei?! Ah... aí nem eu, nem o blog, nem quem for ler essa lista terá férias para o resto da vida. Mas, minha mente que estourou o teste de QI do Nanan, resolveu ir por um caminho mais fácil. Vou deixar aqui os livros que estão na mão para leitura. Se eu sei se são bons?! Evitemos a obviedade...
Don Quijote de la Mancha – Miguel de Cervantes (ed. do IV Centenário)
Vivir para contarla – Gabriel García Márquez
O Amor Infinito de Pedro e Inês – Luis Rosa
As Intermitências da Morte – José Saramago
Bocage – A Vida Apaixonada de Um Genial Libertino – Luis Rosa
E daquele de quem não posso deixar de falar, fica também um pequeno trecho:
The Complete Works of WILLIAM SHAKESPEARE
“Romeo: [to Juliet] If I profane with my unworthiest hand
This holy shrine, the gentle sin is this;
My lips, two blushing pilgrims, ready stand
To smooth that rough touch with a tender kiss.”
“Romeu – (a Julieta.) Se profano com minha mão por demais indigna esse santo relicário, a gentil expiação é esta: meus lábios, dois ruborizados peregrinos, estão prontos a suavizar com um terno beijo tão rude contacto.”
Ao voltar das férias, trarei porções de cada um para o encanto dos bons leitores.
Um assalto. Levam o carro. Os assaltantes falam com a maior naturalidade e, mesmo vendo o 38 na mão de um dos meliantes, dá para manter a calma porque parece que ele só quer os bens materiais. Vão embora... e aí vem a parte demorada: é preciso fazer o boletim de ocorrência. Delegacia vazia. Em instantes duas viaturas e o pavor: eles fazem tanta pergunta com caras bravas que bate um medo de acabar na prisão. Afinal, parece crime ter o carro, dinheiro e documentos roubados. Não fosse a memória curta para lembrar de carregar o celular, ia ele também. A pergunta é: onde estão os mocinhos?!
E...
Final de semana pensando muito: que mecanismo esconde as próprias falhas na hora de julgar outras pessoas para fazer alarde nos tropeços subseqüentes?! (exemplo nacional para facilitar a compreensão)
E...
Acordar com vontade de ler blogs amigos. Entre os primeiros, de pessoas antenadas, dois deles estão falando da situação política caótica. Por incrível que pareça, diante da tolerância exacerbada de tantos brasileiros, dá para pensar que de fato tudo está bem no reino da Dinamarca e só Hamlet não consegue ver isso... Se você tenta fazer algo pequeno para melhorar o país, fica com a sensação de que nada está fazendo de efetivo; se tenta algo grande, que faça alguma diferença, dá de cara com algo podre que não favorece os bons resultados... a menos que esses bons resultados favoreçam alguém nas urnas... Impressão minha ou tem um país andando em círculos desde a colonização?! Por que os portugueses não desceram no Brasil em um dia de calor para os índios tirarem as roupas deles em lugar do contrário?!
E do “amor”...
Os dois ficaram noivos. Ele uma paixão de tirar do chão; até tatuou as iniciais dos dois na mão. Brigam. Ficam alguns dias sem conversar. Ela manda mensagens para ele no celular e quem liga de volta é uma outra reclamando o direito de namorada... Não, isso não é a nova novela das oito. É a versão mais barata de “amor”. Encontrável em qualquer lugar...
E ainda me dizem que é ruim ficar muito tempo sozinha. Ruim é ficar mal acompanhada.
Amor de verdade...
Hoje cedo eu vi um casal idoso, de braços dados, indo à feira, na maior alegria. Mesmo sendo uma situação difícil de ver e a de cima mais comum, ainda creio que o amor verdadeiro seja possível. Mas sei que pessoas para ele é que são raras...
“Un elefante se balanceaba sobre la tela de una araña. Como veía que no se caía fue a llamar a otro elefante. Dos elefantes se balanceaban...”
“Fortunatamente, la virtù della boccettina magica aveva prodotto il suo massimo effetto...”
Enquanto isso, lá no lago dos sapos, agora cururus...
“Uma vez, contaram que o Cururu era filho do Rei. E o Rei e o Cururu acharam, por bem, acreditar. Daí, foi um passo para o resto do mundo dar boas-vindas ao novo príncipe: o trompetista, o flautista, o poeta real, a moça da sacada, a moça dos cântaros e a velha do outro lado do rio.
Porém, quando o Cururu chegou ao Palácio, o Rei pediu-lhe que ele retirasse as sete peles que o faziam sapo. O Cururu disse “pois não” e pôs-se a retirá-las. Na sétima pele, o Cururu permaneceu sapo. O Rei, com voz triste, falou que aquele não era seu filho, que seu filho vivia sob sete peles de cururu, como o amaldiçoara, há muito tempo, um gênio mau que por ali passou.
O Cururu, então, abriu bem os olhos e disse:
— Por que Vossa Alteza não retira os sete mantos que o fazem Rei?
E assim despiu-se Vossa Majestade. E no sétimo manto, o Rei levantou-se sapo. Imediatamente, todos que estavam ao redor retiraram as “sete peles” que os encobriam: alguns macacos viraram onças; outras onças viraram macacos; o trompetista tocou flauta; o flautista, trompete; uma flor saiu-se borboleta e o mundo inteiro tornou-se o que ele sempre quis, sem que ninguém soubesse...”